Plataforma Lattes e o Grupo Stela

Foi em 1995 que um grupo de estudantes da pós-graduação de Engenharia da Produção (PPGEP) da UFSC (Roberto, Aran, Fernando e Tite) se reuniu para criar um sistema de gestão do mesmo programa em que pertenciam. O software, chamado de Sistema Stela, era integrado aos sistemas federais, para evitar que os professores e o coordenador do programa tivessem que preencher todas as informações novamente nos programas da CAPES e do CNPq. Além disso, tinha bibliotecas digitais e um módulo que permitiu atender os alunos iniciantes de um programa de mestrado a distância com uso de videoconferência, e matrículas on-line. Lançada em 1996, essa configuração era pioneira na época, o que gerou repercussão nacional. Tal experiência ajudou a criar o próprio nome do grupo – Stela. A criação do Sistema Stela levou o Grupo Stela até a demanda para desenvolver o que viria a ser o maior sistema de gestão estratégica curricular de ciência, tecnologia e inovação do Brasil, e uma das bases de pesquisadores mais completas do mundo, a Plataforma Lattes.

Em 1997, o então já formado Grupo Stela, foi convidado pelo CNPq para desenvolver um sistema que pudesse abranger os grupos de pesquisa do Brasil. Coordenado por Roberto Pacheco e composto por Aran Moralles, Fernando Borges Montenegro, Todesco, Rike, Salm, Marchezan, Domingos e Rita, o grupo iniciou uma pesquisa para ser o desenvolvedor de uma solução em que também seria usuário. A equipe do Grupo Stela, que foi aumentando até o fim do projeto de desenvolvimento em 2003, tinha o estranho hábito de perguntar se podia acrescentar mais recursos ou ampliar determinado conceito. Geralmente o oposto acontecia com a contratação de empresas de desenvolvimento de software pelo CNPq.

Assim, longe de ser somente um grupo desenvolvedor de software, o Grupo Stela sempre colocava os resultados das pesquisas realizadas sob avaliação dos responsáveis no CNPq e, quando aprovados, tais resultados eram incluídos nos sistemas e instrumentos, ainda que não houvessem sido previstos originalmente. Diante dessa dinâmica de trabalho com o CNPq foi se criando um horizonte muito maior, onde culminou na ideia de não propor somente um novo sistema de currículos, mas sim uma plataforma que pudesse comandar sistemas de informação, que servissem tanto ao CNPq como à comunidade científica.

Então, em 1998 com o levantamento junto aos pesquisadores e com os estudos realizados pela área de planejamento e estatística do CNPq e Grupo Stela, iniciava-se o projeto de desenvolvimento da Plataforma Genos (que mais tarde veio a se chamar Plataforma Lattes), tendo como primeiro passo visível à comunidade científica a proposição de um novo sistema de currículos. No final desse ano de 1998, com a troca de ministro no Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), assumiu Luiz Carlos Bresser Pereira, que também acumulou a presidência do CNPq.

Quando o ministro soube que havia um projeto para fazer “outro currículo” ele disse que pararia com tudo, porque o Brasil já estava com muitos sistemas. Então, em fevereiro de 1999 ele marcou uma reunião no MCT, com a presença dos três vice-presidentes do CNPq, de sua Diretoria, bem como de Secretários e assessores do MCT e com representantes do projeto do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), que estavam utilizando as soluções desenvolvidas pelo Grupo CESAR (no sistema Cadastro Nacional de Cursos de Educação Profissional Técnica de Nível Médio – CNCT). O Grupo Stela, representado por Roberto Pacheco e Fernando Montenegro, também compareceu à reunião.

A partir dessa reunião veio uma decisão política fundamental: oficializar o então Sistema Genos Currículo como sistema único de currículos em ciência e tecnologia no país. O Ministro Bresser Pereira decidiu por um novo nome, para que ficasse clara a unicidade dos vários projetos em andamento, e indicou seu desejo de que o MEC reconhecesse a plataforma como nacional, aumentando o grau de racionalização do tempo dos pesquisadores. O nome foi uma homenagem ao físico brasileiro César Lattes e o envolvimento do MEC ocorreu por meio do acordo entre CAPES e CNPq, em abril de 1999.

Ainda em 1999 são abandonados os três formulários eletrônicos existentes que serviram ao propósito específico de apoiar atividades operativas de fomento à ciência e tecnologia: dois do CNPq (BCURR para DOS e Mini para Windows) e um do MCT (para o PADCT). Em adição ao formulário de currículo, o então CV-Lattes tinha também indicadores, geração de homepages e relatórios dinâmicos, além do atendimento aos pedidos identificados na pesquisa aos consultores. Portanto, o Sistema CV-Lattes nasceu da análise dos formulários existentes, da consulta a representantes da comunidade científica e de sua inserção em um conceito mais amplo de gestão da informação: como unidade de uma plataforma.

Assim, o projeto gráfico foi refeito para “Lattes”, além do modelo de dados existente que foi também alterado para contemplar pedidos da CAPES.  A partir disso, finalmente foi lançada a primeira versão da Plataforma Lattes, o Sistema CV-Lattes, em agosto de 1999. Em dezembro do mesmo ano já haviam 10 mil currículos preenchimentos no sistema, uma grande adesão para aquele momento.

Na época havia uma demanda para renovação de orientadores no CNPq e iniciavam-se os preparativos para o quarto Censo de Grupos de Pesquisa, que foi adiado à espera do currículo (ficou para 2000). Nesse mesmo ano de 2000 o Grupo Stela coordenou um trabalho inédito de integração entre o sistema de currículos do CNPq e o sistema de Coleta da CAPES. Participaram da experiência 18 programas de pós-graduação do País, que ajudaram a comprovar a viabilidade da integração, oficializada pela CAPES no triênio de avaliação seguinte, em 2001. Foi também em 2001 que a Plataforma ganhou duas versões internacionais, uma latina e uma portuguesa.

Um ano depois, em 2002, o Grupo Stela se torna o Instituto Stela, uma entidade privada sem fins lucrativos com a missão de criar ferramentas de Engenharia do Conhecimento para transformar dados em conhecimento. Nesse ano de 2002 a “Redação O Estado Do Paraná” publica uma reportagem sobre a comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Maringá – UEM, a qual descreve que a UEM adere a Plataforma Lattes visando promover a divulgação da produção intelectual e das atividades profissionais da comunidade.

No ano de 2003, em entrevista a Revista Nexus, Roberto Pacheco relata o histórico do Instituto Stela e sua trajetória com a Plataforma Lattes. No ano seguinte, em 2004,  a Plataforma Lattes recebe o primeiro lugar do prêmio e-Gov, na categoria Governo para Cidadão, durante a Semana de Inclusão Digital, realizada no Centro Cultural São Paulo. Nesse mesmo ano a Revista Gestão de Conhecimento apresenta um artigo em que fala de como a Plataforma Lattes desperta o interesse internacional, enquanto o Observatório da Imprensa relata como a plataforma produz um auto retrato de Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil.

Nos anos seguintes, a Plataforma Lattes vai se consolidando a partir do constante acréscimo de novos pesquisadores, e em 2007 a FAPESP reconhece o sistema como um dos mais importantes do Brasil em termos de gestão de informação de Ciência e Tecnologia, na reportagem de Dinorah Ereno, na revista Pesquisa FAPESP.

Embora o projeto da Plataforma Lattes já tivesse sido reconhecido anteriormente (como o premio de melhor projeto e-Gov G2S em 2004), o artigo de Julia Lane na Revista Nature  foi decisivo para a plataforma ganhar reconhecimento nacional, em nível muito maior do que antes. Isso pode ser constatado pelos artigos de blogs e revistas on-line que cobriram este reconhecimento da Julia Lane, como nos exemplos abaixo:

O impacto da Plataforma Lattes também foi mencionado em artigos científicos:

O artigo gerou grande reconhecimento devido ao fato de Julia ser nessa época a diretora da National Science Foundation dos Estados Unidos. Ela estava fazendo uma revisão dos sistemas internacionais de gestão de informação em CT&I, quando conheceu o Lattes e o reconheceu como o principal projeto de mapeamento nacional de dados. Mais tarde Julia Lane voltou a citar a Plataforma em outros trabalhos, como em um artigo o qual coloca a Plataforma Lattes ao lado de importantes projetos internacionais e uma entrevista que impressiona os mais céticos sobre a maneira com que ela viu este projeto, ao dizer:

“Os brasileiros estão muito à frente de nós, com o Programa Lattes. Estamos realmente impressionados com o Brasil. Eu argumentaria que parte da razão pela qual eles estão sendo tão bem sucedidos em suas políticas de ciência e tecnologia é porque eles têm sido muito mais inteligentes sobre a forma com eles vêm aplicando seus investimentos” (tradução nossa).

“The Brazilians were way ahead of us anyway with their Lattes program. We were really impressed with Brazil. I would argue that part of the reason they’ve been so successful in science and technology policy is they’ve been a hell of a lot smarter about the way they’ve done their investments” (trecho original).

Todos esses acontecimentos apoiaram a ciência, tecnologia e inovação no Brasil de tal forma que se criou uma cultura em torno do registro e consumo de informações da Plataforma Lattes. Nos dias atuais é indiscutível que a plataforma possua uma das base de dados mais confiáveis do mundo sobre estudantes, professores, especialistas, pesquisadores e suas respectivas produções. Essa base de dados também pode ser considerada um patrimônio imaterial, pois permite conhecer e compreender grande parte das pessoas que produzem pesquisas, patentes e registros no Brasil.

 

Be the first to comment on "Plataforma Lattes e o Grupo Stela"

Leave a comment

Your email address will not be published.

*


Solve : *
11 − 3 =